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Carolina Maria de Jesus

Ana Beatriz Eirado Martins


Carolina Maria de Jesus é uma autora que muito me intriga. Sua vida e suas obras refletem um Brasil pouco conhecido e pouco comentado. Talvez seja por isso que só vim a conhecê-la em 2018, quando entrei na UnB. Lembro que estava andando pelos corredores da Faculdade de Direito e me deparei com frases profundas escritas em folha A4 e pregadas nas paredes. Parei por um instante. Refleti. Balancei a cabeça como quem concorda com o que lê. Vi que aquelas palavras foram escritas por uma tal de Carolina Maria de Jesus, que à época não fazia ideia de quem era e de como me interessaria cada vez mais por seu trabalho. E segui caminhando...


Parece que depois desse dia, me dei conta da importância da autora, pois navegando pelas redes sociais ou em conversas com amigos passei a ouvir mais gente falando sobre ela. Foi então que em 2020 finalmente decidi ler seu livro mais famoso, “Quarto de despejo” e para a minha surpresa, não encontrei para comprar nas principais livrarias físicas e digitais. Fiquei muito pensativa. Como um livro tão importante, que foi traduzido para 19 idiomas e publicado em mais de 40 países não está à venda nas livrarias brasileiras? Encontrei o livro em inglês, mas não em português. Não faz o menor sentido!


Liguei em alguns sebos de Brasília e também não encontrei. Passei a mandar mensagens para os sebos de tempos em tempos e um dia, finalmente, depois de alguns meses procurando o livro, consegui achá-lo. Nunca fiquei tão feliz ao comprar um livro. Tanto é que lembro até hoje os mínimos detalhes daquele dia. Eu sei, é meio bizarro.


Comecei a ler “Quarto de despejo” e por alguns dias só falava dele. Fiquei abismada como a autora se expressa de forma tão simples e tão profunda. Aquele diário parecia poesia. Aquelas palavras eram pura arte! Carolina tem o dom da comunicação. Descrevia sua dor e aflorava em mim sentimentos que ainda não conhecia. Descrevia sua alegria e aqui de casa eu sentia. Ela retirou da invisibilidade a história de tantos brasileiros e ainda me apresentou realidades que não fazia ideia que existiam.


Seu diário, quando publicado em 1960, deu o que falar. Muitos se identificaram com os relatos, outros duvidaram da veracidade das palavras. As opiniões sobre o livro eram controvertidas. A elite literária não estava preparada para ouvir uma voz vinda direto da favela. Tanto é que Carolina, diferente de outras personalidades da literatura, teve que constantemente provar que era escritora. Mesmo vendendo mais livros, à época, do que Clarice Lispector e Jorge Amado.


Após a publicação do diário, a vida de Carolina mudou completamente. Todos queriam entender aquela figura que acabava de ganhar espaço na mídia brasileira. Passou a ser muito assediada pelos jornais e requisitada nos eventos da elite. Viveu, em um curto período, realidades opostas. E seu olhar crítico a acompanhou em todas elas, para a alegria dos leitores entusiasmados com seu trabalho e para a tristeza dos críticos.


Em 1961 publicou seu livro “Casa de Alvenaria”, que diferente de “Quarto de despejo” não foi um sucesso de vendas. Talvez a sociedade brasileira não estivesse pronta para ouvir as críticas de Carolina à elite. Vai saber. Fato é que os livros publicados em sequência também não chamaram a mesma atenção do público. Estava nos holofotes enquanto falava da favela e da miséria. Quando se atrevia a discutir outros assuntos era preterida. Por quê?


O objetivo deste texto não é apresentar respostas, mas gerar, no leitor, questionamentos.


O que torna um autor da literatura alguém consagrado? Quem tem o poder de dizer quais histórias podem ser contadas e quais merecem reconhecimento? Que mecanismos excluem alguns pensamentos dos ciclos literários e por quê? Quem domina o direito à memória?


Até hoje é difícil encontrar os livros de Carolina para comprar. No entanto, para a alegria das pessoas que como eu se apaixonaram pela autora, a Companhia das Letras anunciou que, em breve, obras inéditas de Carolina serão publicadas. E mais, Conceição Evaristo, escritora influenciada pelos escritos da autora, fará parte do Conselho Editorial.


Me parece que a nossa geração compreende um pouco mais quem foi Carolina e a importância da autora para a literatura brasileira. Eu só espero que as palavras de Carolina continuem ganhando vida e circulem pelo Brasil. Pois já passou da hora de darmos o devido reconhecimento às ideias apagadas por uma narrativa seletiva e excludente.


Referências Bibliográficas


FARIAS, Tom. Carolina: uma biografia . Rio de Janeiro: Malê, 2018.


https://www.blogdacompanhia.com.br/conteudos/visualizar/Carolina-Maria-de-Jesusna-Companhia-das-Letras

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