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Uma nova carta à Universidade - por Amanda Conti, petiana egressa

Há pouco menos de três anos, achei que tinha chegado ao fundo do poço, psicologicamente falando. O meu curso se tornara de tal forma frustrante e opressor que não via uma forma de continuar. Eu olhava para frente e via um buraco negro me puxando, eu sentia a depressão me consumir, a ansiedade me fazia chorar e os antidepressivos me deixavam cansada demais para ir às aulas. Foi uma época bastante complicada. Mas eu não estava no fundo do poço, ainda tinha um caminho pela frente para chegar lá.


Estava no meu segundo semestre do PET, meu quinto do curso de Direito e sem perspectivas de futuro. É uma sensação terrível ter 19 anos e não saber se vai estar viva no dia seguinte, porque eu não sabia quantos dias ainda iria aguentar. Então, uma prova conseguiu me mostrar uma das faces cruéis das Universidades: a forma despersonalizada como elas agem, ainda hoje, sem atentar-se para os indivíduos que compõem esse que deveria ser um local de liberdade, de luta, de produção de conhecimento.


Então, em uma tarde de outubro escrevi minha carta de despedida à Universidade, ao curso de direito, como uma tentativa de me agarrar a alguma bóia salvadora. Mas não havia nenhuma. Eu não sabia o que estava fazendo, para onde estava indo. Perdida, aceitei continuar na Universidade, mas faria isso nos meus termos.

No semestre seguinte, peguei incríveis duas matérias do direito - apenas para não dizer que não pegava nenhuma - e me aventurei pela UnB. Já fazia um pouco disso, mas decidi que precisava conhecer outras coisas, para achar realmente alguma coisa pela qual continuar lutando, um motivo para me levantar da cama de manhã. Fiz psicologia, gravei um filme, estudei idiomas. E comecei a reconhecer uma coisa que me marcava para além de mim mesma: uma necessidade de posicionar-me enquanto ser dentro desse espaço opressivo que ainda são as Universidades, não apenas no Brasil. E isso cresceu dentro de mim, e foi crescendo e ganhando forma, uma ideia de que se precisa algo para mudar a forma como a educação é feita - uma educação que oprime, ao invés de emancipar; que machuca, ao invés de edificar; que marginaliza, ao invés de incluir.

Comecei a notar as minhas colegas e amigas (falo aqui no nome feminino, pois hoje percebo que mesmo coisas pequenas como essas são uma forma de resistência nesse nosso espaço), e percebi que estavam muitas vezes tão doentes quanto eu, ou mesmo mais. Elas se agrediam e feriam, se sentiam mal, sentiam suas forças se esvaírem. A morte de uma colega da Universidade contribuiu para esse sentimento acirrar-se, de que as próprias Universidades estão doentes. Não a conheci, mas sua morte me impactou como mulher, como estudante e como ser humano que percebe essas violências cotidianas que temos que tolerar todos os dias nas esquinas dos campi universitários.


Não precisam acreditar na minha palavra apenas nisto. Em pesquisa de 2007, identificou-se que dos Trancamentos Geral de Matrícula (TGM) realizados por motivo de saúde, em 82,5% dos casos havia problema ligados a dificuldades emocionais, com vários indícios de terem sido desencadeados por fatores de stress, sendo que poucos dos estudantes pesquisados recebem o tratamento adequado (BOHRY, Simone. Crise Psicológica do Universitário e Trancamento Geral de Matrícula por Motivo de Saúde. Universidade de Brasília, Distrito Federal: Brasília, 2007, p. 192). Estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro observou a prevalência de stress em 50% dos alunos, sendo 1,6% na fase de alerta, 41,2% na fase de resistência, 5,2% na fase de quase-exaustão e 2,1% já na fase de exaustão. Nessa pesquisa, identificou-se um maior risco de mulheres apresentarem sintomas físicos e psicológicos de stress e de desenvolver as fases mais graves do problema. Falta de contato com a família e maior distância entre a residência e a universidade foram observados como fatores que contribuíram para maiores níveis de stress (LAMEU, Joelma do Nascimento; SALAZAR, Thiene Lívio; SOUZA, Wanderson Fernandes de. Prevalência de sintomas de stress entre graduandos de uma universidade pública, Psicol. educ. no.42 São Paulo jun. 2016. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-6975201600010000).

Além do gênero - associado a maiores níveis de ansiedade e depressão - questões econômicas também já foram relacionadas há maiores índices de stress e maiores níveis de depressão entre estudantes universitários (BAYRAM, Nuran. Nazan, Bilgel. The prevalence and socio-demographic correlations of depression, anxiety and stress among a group of university students. Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology, August 2008, Volume 43, Issue 8, pp 667–672).


As pequenas coisas que se acumulam na nossas vidas universitárias - e na vida cotidiana como um todo - nos adoecem e nos ferem. Quando disse que ainda não tinha chegado ao fundo do poço, disse a verdade. Ainda vivi, e vivo, muitos episódios depressivos e crises de ansiedade. Estou melhor hoje, estive pior ontem, e ainda há dias em que olho pela janela e me pergunto se faria alguma diferença se atravessasse o vidro e deixasse meu corpo cair no espaço. Eu sei, é algo difícil de pensar, mas algo de que precisamos urgentemente falar. Esse grito calado, essa palavra de dor presa na garganta precisa sair para que possamos viver para batalhar mais um dia. Estamos doentes porque algo nos adoece, e esse algo precisa ser denunciado, ser pichado nos murais, ser fotografado, enquadrado, rabiscado, encenado e recitado. Precisa ser gritado aos quatro ventos e reclamado nos jornais. Publicado em primeira página, divulgado nos canais de rádio.


Por isso que, já faz mais de um ano, tive a ideia da exposição. Ela demorou para sair do mundo das ideias, mas nunca foi tão necessária quanto hoje. As microviolências se multiplicam nos espaços e pesam sobre os nossos ombros. Mas nós temos asas mais fortes do que as amarras nos nossos pés e acreditem: podemos voar.



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Créditos fotografia: André Murrer, peça "Sutil violento", companhia de teatro Heliópolis



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