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Inflação e Segurança Alimentar

Atualizado: 16 de mar. de 2021

Ítalo de Carvalho



Li em algum lugar que o escritor tem apenas a primeira linha para ganhar o leitor (não que me ache um escritor). Fato é que, após muito escrever, percebi que minha escrita é árida e pouco cativante, logo, peço perdão ao saudoso leitor, pois aí vem informação indigesta: os preços dos alimentos dispararam no Brasil em 2020 e parecem seguir essa mesma tendência em 2021, uma sequência de mau gosto do ano antecessor.


Se o caro leitor vai ao mercado, desnecessários são os índices elegantes dos economistas. Alimentos básicos estão mais caros, nosso dinheiro vale menos. Entretanto, à moda da escrita científica que precisa ser valorizada nos dias de hoje, vejamos alguns desses números:


Fonte: FGV. Elaboração FGV.

Está aí. A curva 'Alimentação' puxou o acumulado do IPC-S, elaborado pela Fundação Getúlio Vargas.


A pergunta óbvia é: como chegamos neste ponto? Como tudo em Economia, a resposta dependerá do viés metodológico-teórico daquele que responde. Deixo claro para o leitor que, não sendo economista, não me coloco como ortodoxo ou heterodoxo. Deixando o debate teórico de lado, aparentemente a grande maioria dos especialistas concorda que uma série de eventos causou esse aumento: câmbio desvalorizado em relação ao dólar, aumento da demanda externa por alimentos e as consequências na cadeia de produção provocadas pela pandemia.


Não pretendo me alongar muito nesta seara, mas a desvalorização do câmbio e o aumento da procura externa por alimentos brasileiros são diretamente proporcionais. Exportar é mais vantajoso, nesse cenário de dólar nas alturas, tanto para quem compra, quanto para quem vende. Tanto é que, nosso saudoso Despresidente da República (o leitor que me perdoe por esse neologismo), foi à público pedir patriotismo aos grandes vendedores, para que exportem menos, fazendo com que a oferta interna de alimentos aumente.


Todos sabem que, em sociedades capitalistas, o lucro é o mais importante dos valores. É pedir para um alcoólatra escolher entre a tequila e o suco de uva (peço perdão ao leitor por essa comparação de claro mau gosto, uma ofensa aos que sofrem de alcoolismo). O lucro prevalece e, acrescente-se a isso, o fato do agronegócio não produzir, necessariamente, alimentos para brasileiros. A ação do Desgoverno, lança no a seguinte pergunta: qual é a política de segurança alimentar brasileira?



Os gestores da política nacional certamente esquecem-se de que, há poucos anos atrás, a fome era um problema sério no Brasil. Como um resfriado de verão, a fome sempre pode voltar. Cientes de que os alimentos sejam, talvez, a variável mais importante para a maior parte das famílias, alguns países se posicionaram para torná-los sempre acessíveis a sua população e que possuam qualidade aceitável.


Ao norte, nas terras do Tio Sam, famosos são os ricos fundos de financiamento para tornar a agricultura interna competitiva, prioriza-se o abastecimento pátrio. Do outro lado do Atlântico, no Velho Mundo, a União Europeia possui complexa política envolvendo o sistema agrícola dos países do bloco, nem pretendo enfrentar esse debate em poucas palavras.


O protecionismo desses países ditos ricos talvez tenha sua origem no fundado receio de depender de outras nações para produzir o básico. Talvez seja a escolha política de não deixar “na mão” sua população rural. Talvez os motivos sejam diversos, fato é que, sendo os motivos que forem, eles não se resumem a um argumento econômico-simplista (sim, meus caros, há argumentos econômicos muito complexos e completos).


Claro que a segurança alimentar não se encerra na política de incentivo ou desincentivo aos produtos agrícolas de exportação. Perpassa por essa política a noção do que é mais interessante para o país. E é nesse ponto que os leitores atentos se perguntarão: e a agricultura familiar? Afinal, é ela que garante os alimentos na mesa de expressiva quantidade de brasileiros. Claramente esse importante ramo da economia brasileira não está blindado contra a variação cambial e nem a injeção de moeda na economia em consequência do Auxílio Emergencial.


Entretanto, recuso-me a prolongar este texto. Motivado por uma mistura de falta de conhecimento e, claro, receio de entediar ainda mais o leitor que reservou seu precioso tempo para chegar até aqui. O intuito é provocar o leitor que provavelmente nunca viveu a inflação na pele, corroendo a renda como se ácido fosse.


Fato é que, a inflação é um fator relevante enquanto pensamos em segurança alimentar. Os mantimentos precisam ser acessíveis! Qualquer política nacional para os alimentos que não leve em conta a precificação da cesta básica, deve ser deixada de lado e repensada do zero. Claro, o leitor deve ficar ciente, que os alimentos e seus preços reagem a muitas variáveis: transportes (e, portanto, reage ao preço dos combustíveis que atualmente seguem uma política de preços draconiana) , tributação, variações de demanda externa (demanda essa que é uma reação direta aos movimentos do câmbio), e muitos outros fatores.


Alimentos são, talvez, a variável mais relevante e sensível para a maior parte das famílias brasileiras. A gravidade é óbvia. A fome não diminui em tempos de crise econômica, ela não acompanha os sobe e desce dos gráficos e das bolsas. Resta, portanto, perguntar: até quando os preços aumentam? Os brasileiros mais pobres conseguem se alimentar de forma segura com os atuais preços? Para a última pergunta, a resposta óbvia é o categórico 'não'.


A cada dia que passa, o Brasil se envereda por caminhos que apontam, em seu horizonte, para terrível desastre humanitário.


Referências:

IPC-S. In: IPC-S. [S. l.], janeiro de 2021. Disponível em: https://portal-da-inflacao-ibre.fgv.br/. Acesso em: 1 mar. 2021.



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