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Eu não reconheci meu burnout: a minha experiência, desde os primeiros sintomas até a crise

Lucas Sena



Este texto não tem o intuito de ser acadêmico, nem teórico, nem muito menos disciplinar. O intuito deste texto é exclamar um relato pessoal: a minha experiência com o burnout, desde os primeiros sintomas até a crise.


De onde eu venho, somos ensinados a aproveitar com unhas e dentes todas as oportunidades que cruzam nosso caminho. Comigo não foi diferente. Apesar da pouca idade, desde muito cedo, tentei transformar as adversidades em oportunidades de crescimento pessoal, cognitivo, intelectual e humano. Não sei se consegui, mas tenho a sensação de que boa parte do que sou hoje se construiu assim: aproveitando minuciosamente cada oportunidade.


Quando entrei na UnB, em 2014, não consegui me desvencilhar dos meus dois trabalhos de uma hora para outra. Meu primeiro semestre foi dividido entre os dois trabalhos e as aulas diurnas e aos sábados. Só quem é calouro e pega Introdução à Economia sabe a terrível sensação de ser obrigado a frequentar os anfiteatros do ICC Norte para fazer controles de leitura e provas unificadas aos sábados. Apesar disso, eu dava um jeito de conciliar tudo. No segundo semestre, porém, decidi me arriscar e largar o trabalho para ficar somente na UnB. Você pode estar se perguntando: “arriscar o quê?”. Pois bem, arriscar mais ainda a saúde financeira do meu lar, que, desde aquela época, vendia o almoço para comprar o jantar. Talvez por isso eu tenha me interessado muito cedo em escrever sobre desigualdades e acesso à educação. Aliás, o texto que eu estava rascunhando para publicar no lugar deste aqui era sobre isso, mas, novamente, decidi me arriscar e contar este relato.


Larguei os dois trabalhos e fiz a seleção para o PET POL. No dia que saiu o resultado do processo seletivo, eu me lembro de ter pulado tanto de alegria que até hoje não sei descrever completamente. A parte que sei descrever tem a ver com o fato de ter me tornado bolsista e, por causa disso, não ter que me preocupar tanto - apesar de a bolsa, naquela época, cair praticamente de três em três meses.


O PET POL foi um divisor de águas na minha vida. No auge dos meus 18 anos, eu ia ansioso para debater com o Pablo, tutor daquele período, e com os demais colegas sobre os textos da semana. Depois de um texto sobre transconstitucionalismo, comecei a me interessar cada vez mais pelo Direito. Com a paixão cada vez mais aflorada em mim, dois anos após entrar no PET POL, mudei de curso. O começo no Direito foi estranho, confesso. A primeira aula que tive foi com a professora Ana Frazão, que lecionava Teoria Geral do Direito Privado, uma matéria com a parte geral do código civil e com as noções introdutórias do Direito Privado. Sem dúvidas, foi uma paixão à primeira vista. Sem reclamar, eu saía da Santa Maria às 5h30 para chegar antes das 8h na UnB. A chamada era feita pontual e exatamente às 8h. Não sei vocês, mas eu me sentia completamente maravilhado por ouvir aquela mulher falando de teoria da boa-fé tão cedo da manhã.


Porém, a transição para o Direito não foi das mais fáceis. Eu me sentia muito sozinho na Faculdade de Direito. Talvez porque eu tivesse entrado num semestre sem calouros. Aliás, entrei num semestre no qual eu era o calouro numa turma cheia de veteranos. O envolvimento com a turma demorou um pouco, mas aconteceu. Consegui fazer poucos, mas excelentes colegas naquela turma.


Naquele semestre, minha imunidade estava baixa e eu constantemente tinha inflamações de garganta e febre alta. Como eu morava muito longe, a BCE e o BSAN eram meus refúgios para estudar. Perdi as contas de quantas vezes virei a noite na UnB porque precisava terminar de estudar algum conteúdo e não tinha como voltar para casa. Eu também não reclamava disso, pois, na minha cabeça, fazia parte.


No final daquele semestre, infelizmente, eu tive uma baita inflamação de garganta e tive de faltar a prova final de TGDPri. Prontamente, a professora me escreveu no facebook e me perguntou se eu poderia participar de uma prova oral na outra segunda às 8h. Prontamente também, respondi que sim. Eu tinha mais três dias para estudar. O detalhe negativo era o fato de que cairia todo o conteúdo do semestre. Apesar de doente, passei esses três dias estudando de forma intensa para aquela prova oral. Era uma missão impossível apreender todo o conteúdo do semestre em três dias, mas eu dei o meu melhor. Fui confiante para aquela prova, mas, justamente nas questões iniciais, minha mente travou. As duas únicas coisas que me lembro daqueles minutos na sala dela são: ela me pediu para citar 3 teorias e 3 autores da boa-fé e, ela sem compreender o que se passava, me perguntou se eu não tinha estudado para a prova. Era realmente de se estranhar, pois eu tinha quase gabaritado a primeira prova e tinha sido um aluno dedicado à disciplina. Eu também estranhei.


Aquele foi o primeiro sinal que meu corpo estava dando sobre o burnout, mas eu não percebi. Embora essa tenha sido uma das experiências que mais me traumatizaram na vida acadêmica, eu segui em frente. Continuei dando o meu máximo nas disciplinas, virando madrugadas na UnB e - não sei como - conseguindo cumprir com todos os prazos. Como eu tinha passado por essa situação constrangedora na matéria que eu mais gostava, decidi que eu não poderia mais faltar nenhuma prova. Eu não poderia correr o risco de travar novamente como naquele dia.


Eu confesso que a universidade serviu para diversos propósitos na minha vida. Foi lá que eu tive coragem de gritar ao mundo quem sou, foi lá onde eu encontrei espaço para expor minhas ideias e ideais, foi lá onde eu encontrei pessoas maravilhosas que, embora a distância causada pela pandemia seja uma realidade, ainda as carrego no coração e foi lá onde eu comecei a militar pelo meu povo.


Na cabeça, porém, carrego outros dois momentos como aquele. Infelizmente, cada vez mais terríveis e marcantes para mim. No final do meu quinto semestre, o professor de Processo pediu para que a turma preparasse algumas apresentações em dupla. Os assuntos abordavam a parte de litígios no processo civil. Tudo certo, seria apenas mais um seminário. Coisa boba, eu pensava. Minha colega e eu nos preparamos para aquele seminário de uma forma que eu já estava acostumado. Eu nunca tinha tido problemas graves ao falar em público, então, em tese, não teria o que temer. Na noite anterior, porém, eu tinha ficado até 22h40 na UnB fazendo uma prova, o que também era normal, pois, como eu já disse “faz parte da vida acadêmica”.


Nosso seminário começou pouco depois das 8h. Eu me lembro que alguma coisa me deixou nervoso e as palavras não saíam. Mesmo eu tentando falar, elas ficavam presas na garganta. Era uma sensação de total descontrole sobre uma função que, até então, eu dominava bem. Fiquei tão apavorado que pedi desculpas à sala e ao professor e continuei ali, ao lado da minha colega, apenas escutando-a apresentar. O professor foi super atencioso e me disse para não me preocupar, mas, na minha cabeça, eu só conseguia pensar que eu tinha falhado, que aquilo não deveria ter acontecido.


Mais uma vez, pensei que fosse algum lapso de memória nada sério. Nada que eu precisasse me preocupar. Novamente, segui em frente. Eu tinha falhado num seminário, o primeiro seminário no qual as palavras ficaram presas na minha garganta e encarceradas na minha mente. Nessa época, eu já era PETiano do PET Direito e me reunir com meus colegas era terapêutico. O mundo poderia estar caindo do lado de fora, mas, dentro do nosso aquário e com os lanches da Pepita, tudo estava calmo e sereno - pelo menos, entre 17h e 19h de todas as terças-feiras.


O tempo foi passando e o ritmo de trabalho e compromissos com a universidade aumentando. Eu sempre fui um aluno comprometido com aquilo que me motivava. Quando entrei no mestrado, em 2019, também na FD, o cenário em relação aos colegas foi muito diferente da graduação. Muito facilmente, consegui construir amizades incríveis que me impulsionaram e me encheram de inspiração. Sem tirar, nem pôr, minha orientadora, Ana Farranha, foi uma das pessoas mais incríveis que eu tive a honra de conhecer.


Contudo, já no primeiro semestre do mestrado, eu não me sentia o mesmo. Eu tinha impressão de que os desafios tinham dobrado de tamanho e que eu precisava de mais tempo e de mais recursos para me dedicar àquele sonho. Eu tinha acabado de passar por um término. Eu dizia não estar abalado, mas foi uma das experiências mais sombrias que eu já passei internamente. As matérias do mestrado e da graduação foram um refúgio. Naquele primeiro semestre, me matriculei em doze disciplinas para esquecer do mundo ao meu redor, dos problemas pessoais e me focar apenas nas leituras, fichamentos, estágios, seminários, aulas, reuniões, grupos de pesquisa. Não posso ser hipócrita e dizer que não funcionou. Funcionou, sim. Em questão de dias, consegui suprimir a dor do término - de um jeito não saudável.


Finalizado aquele primeiro semestre, tudo tinha dado certo. Eu realmente parecia um virginiano contando prazos, fazendo calendários, separando livros por páginas. No segundo semestre, minha orientadora me pediu para reduzir o ritmo. Acredito que ela não entendia porque eu trabalhava de forma tão frenética mesmo morando tão longe e não tendo dinheiro. Segui o conselho dela e decidi cumprir apenas as matérias do mestrado. Eu queria terminar logo de cumprir os créditos. A dinâmica na pós-graduação é diferente da graduação. No mestrado e no doutorado, somos incentivados a mergulhar fundo na pesquisa, seja produzindo artigos, apresentando seminários, participando de congressos ou lecionando. Eu fazia um pouquinho de cada coisa até que, no seminário de regulação responsiva, com minha hermana Alejandra, eu travei novamente. Desta vez, como eu nunca tinha travado na minha vida. Tudo bem que eu estava acordado há quase 40 horas. Eu considerava normal aquilo. Mais uma vez, segui em frente, mas com uma pulga atrás da orelha.


Finalmente, 2019 tinha acabado e as minhas sonhadas férias chegaram. Não há adjetivos que possam descrever a magnificência que foram aqueles dias de mochilão. Eram as férias que eu sempre tinha pedido a Deus. Mas, novamente, tinha um detalhe: os prazos para entrega dos artigos finais de duas disciplinas ficaram para janeiro. Então, não teve jeito, tive de fazer malabarismo para conciliar os dias de caminhada no deserto com aqueles benditos artigos. Meu humor ficou afetado e, consequentemente, a minha paciência também. Ainda bem que minhas amigas me aguentaram.


No final, tudo deu certo, mas eu já não estava tão bem assim. Começou a crescer em mim um sentimento de aversão ao trabalho que pulsava numa frequência controlável. Voltei do mochilão e realizei outro sonho: me tornei professor voluntário e fui professor de uma matéria de verão. Dar aula realmente fazia meu dia feliz. E eu tive a sorte de ter uma turma dedicada, atenciosa e que gostava do conteúdo. Foi só alegria. Aprendi tanto com eles que foi transformador. Dar aula confirmou em mim a veracidade desse objetivo pessoal, mas isso é coisa para outro relato.


Com o início da pandemia, uma nuvem pesada e cheia de granizo também se iniciava. Ninguém sabia o que viria pela frente, mas todos temiam o pior. As aulas da UnB foram suspensas pouco mais de uma semana depois de se iniciarem naquele março. O semestre estava oficialmente paralisado, assim como eu também estava me paralisando por um tempo. De forma desordenada, comecei a ter aversão também a reuniões. Quando voltei para a casa da minha mãe, não havia internet fixa e eu tampouco me sentia estimulado a ligar para a operadora vir instalar. Porém, não teve jeito, o PET e as reuniões das pesquisas não pararam e eu tive que instalar um pacote de internet. Por vários momentos, o desejo que eu tinha era sumir por uns dias. Passar uns dias na praia longe de tudo e todos era o pensamento que mais passava pela minha cabeça. Como era pandemia, era também impossível cumprir esse pensamento. Então, me prendi em casa e tentei me reconectar comigo mesmo, mas era tarde. Os dias passavam como água na cachoeira: iam rápido, gelados e não voltavam.


Depois de muito yoga caseiro e hambúrgueres, estes últimos que me fizeram ganhar 10 quilos nesta pandemia, recoloquei metas na minha vida: eu precisava passar no doutorado e terminar a dissertação. Mais uma vez, como todas as demais, eu pensava que estava bem. Que estava de vento em popa. “Tinindo” como diz minha mãe. Vários problemas familiares agravaram o contexto da pandemia e eu decidi me fechar para interferências externas. Passei a conversar com poucos colegas e a refazer a minha rotina. Não foi fácil, mas consegui finalizar a dissertação e passei no doutorado.


Só havia uma consequência negativa desses anos de trabalho massante: eu estava esgotado emocional e fisicamente, eu estava cansado de quase tudo, graças a Deus, não da vida. Eu sempre amei viver e ainda tenho muitos sonhos a realizar, mas o esgotamento mental me fez duvidar da vontade de viver. Fui diagnosticado com síndrome de burnout na semana seguinte à minha defesa de mestrado. Eu sentia que havia fracassado, pois a minha habilidade da fala se comprometeu a tal ponto que até hoje eu me sinto tão ansioso e nervoso para falar diante do computador que, no dia da minha defesa, as palavras não queriam sair. Naquele momento, eu vi que precisava de ajuda. Reconhecer isso não foi fácil. Como eu disse no início deste relato, eu agarro com unhas e dentes todas as oportunidades que a vida me dá. Agarro-as com gratidão, com afinco, com determinação, não importa quão exausto eu me sinta, ou quantos desafios a vida ou as adversidades me impuserem. Porém, o corpo cansa. O corpo pede socorro. O corpo para, mesmo se você não quiser parar.


Fui diagnosticado com burnout em fevereiro deste ano e, desde então, tenho reaprendido a viver a intensidade da maneira correta. Estou aprendendo a viver a calmaria, apesar de ela ser um saco. Eu gosto da intensidade, mas odeio a sensação de estar perdendo o controle sobre as minhas habilidades mais intrínsecas. Por isso, tenho aprendido a respeitar meus limites. Tenho tratado também esse problema na fala e tenho buscado não desistir dos meus sonhos.


Eu demorei para perceber o esgotamento, mas ele não me impediu de continuar a cantar “Ninguém Me Ensinou”, do Lagum.




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